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Em Pilar, não ir ao Santo Cruzeiro é como ir a Roma e não ver o Papa

Por Tribuna Hoje Atualizado há • Leitura: 5 min
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“Teve um padre que chegou, nos anos 90, em Pilar; pegou a cabeça do bagre e começou a observar que tinha algo que parecia com o manto de Maria e foi logo divulgar. O padre foi o padre Ernesto, que viu por trás de Jesus o manto de Nossa Senhora, abraçando aquela luz, a coroa, o Espírito Santo. Nossa Senhora com seu manto era um sinal de luz…”

Esses são alguns dos versos da Literatura de Cordel do poeta Sergio Moraes, um filho do município de Pilar, a 35 km da capital Maceió, em Alagoas, homenageando seu torrão, juntando gastronomia ao reverenciar o peixe bagre, símbolo da cidade, e religiosidade, ao declamar figuras do Cristianismo como Jesus e Maria, sua mãe, nos versos.

“Um pescador mostrou ao Padre Ernesto e este pesquisou que o bagre tem um formato parecido com o de Cristo crucificado”, explica Dona Ana Nery, comerciante que vende lembranças numa das barracas padronizadas no Santo Cruzeiro.

E diz um velho ditado popular que todos os caminhos levam a algum santuário no Brasil e essa frase ecoa como um mantra entre devotos, capturando a essência de um fenômeno que vai além da espiritualidade: o turismo religioso, um setor que movimenta bilhões de reais anualmente, atrai milhões de peregrinos e transforma cidades em polos de fé, cultura e economia.

No país mais católico do mundo, com influências de diversas religiões, a romaria da fé não é apenas uma viagem; é uma jornada de renovação, que une história, tradição e um crescimento econômico impressionante.

Em Alagoas, Pilar é um desses polos. Na trilha de quem visita a cidade, diz o povo de lá que ir a Pilar e não ir ao Santo Cruzeiro e ao Complexo Cultural Religioso Dilma Moreira Canuto é como ir a Roma e não ver o Papa – como também diz outro velho jargão popular brasileiro.

É por lá que a estátua de 24 metros de altura de Nossa Senhora do Pilar abençoa o município, banhado pela Lagoa Manguaba.

O lugar começou a se tornar ponto de peregrinação ainda em 1918, quando o padre Manoel Pacheco, da Ordem dos Jesuítas, ergueu ali uma cruz que começou a atrair fiéis.

Isqueiro milagroso ajuda a manter a fé acesa


Cláudio Melo, de 45 anos, coordenador do Santuário de Nossa Senhora do Pilar, é o que pode se chamar de “luz” ou fogo do Espírito Santo no lugar sagrado. Com um isqueiro, Melo já perdeu a conta de quantos fogos e velas ajudou a acender para pessoas que procuram, de alguma forma, agradecer as graças alcançadas com Nossa Senhora do Pilar.

“Sempre tem gente, principalmente senhoras, que querem acender fogos ou velas e perguntam se tenho algo para ajudar. De pronto, tiro do bolso meu velho isqueiro e o problema está resolvido”, contou o coordenador.

Há seis anos tomando conta do espaço, Melo diz que antes existia somente uma cruz e alguns casebres, além da estrada de barro. “Hoje a coisa mudou, virou isso aí que você está vendo, com verdadeiras peregrinações de gente da terra e de turistas”, completou.

A festa para Nossa Senhora do Pilar vai de 20 de janeiro a 2 de fevereiro e a média, segundo ele, é de mais de duas mil pessoas nesse período. Em dias normais, a média é de mil pessoas, pelo menos. “No segundo domingo de cada mês tem missa e vem gente de todo canto daqui e do Brasil”, acrescentou.

Somente nos quatro primeiros meses de 2026, as contratações realizadas por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), principal linha de crédito da instituição, já somam aproximadamente R$ 41 milhões destinados ao turismo.

João das Alagoas, uma atração à parte na arte de esculpir o sagrado

E para dar o toque de mestre e embelezar o lugar sagrado para católicos e não católicos, Nossa Senhora do Pilar não poderia ter um artista mais zeloso para cuidar da trilha religiosa.

Símbolos da Via Sacra que no fim de tarde para saudar o sol, foram esculpidos pelo artista João das Alagoas (Foto: Lucas França)

Foi no modelar de lapinhas, na religiosidade de seu povo, que o artesão da cidade de Capela, João Carlos da Silva Freitas, o “João das Alagoas”, famoso nacional e internacionalmente por esculpir peças em alto e baixo relevo feitas em cerâmica, potencializou arte e religiosidade no lugar com uma trilha da Via Sacra de tirar o fôlego, tamanha a beleza e a arte.

Família ecumênica no turismo religioso

Dona Maria Eugênia é católica fervorosa e, quando sobra um tempinho, vai até o Santo Cruzeiro e leva a tiracolo a filha Marília Paula, o esposo da filha, José Arnaldo, e a netinha amada Aurora para o passeio no Santo Cruzeiro. 

O detalhe: a filha e o genro de Dona Maria são agnósticos e têm em comum também a profissão: são químicos. Eles não têm uma religião definida, mas não dispensam a trilha aprazível.

Marília Paula, o esposo, José Arnaldo, e a filha amada Aurora, não são católicos, mas sempre que podem vão prestigiar o Cruzeiro em Pilar (Foto: Edilson Omena)



“Por incrível que pareça, eu e meu esposo não temos uma religião, mas é um encanto isso aqui, pelas imagens, o passeio, a trilha. Para quem tem religião é importante, mas para quem não tem uma fé definida também é, para apreciar toda essa cultura”, diz Marília.

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